"O prazer de não fazer nada", é um convite aos amantes de Literatura para apreciar poesia, ensaios, fotografias, artes e muito mais.Para os bons boêmios literários, este é o lugar.Sintam-se à vontade. O espaço aqui é de tutti!
quinta-feira, 10 de maio de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
Correspondências
Carta ao leitor
Texto adaptado por Thaís F. Silva
Puxe a cadeira, prezado leitor, para dois dedos de prosa. Olhe quem está na roda: Drummond, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Chico Buarque, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, João Cabral e Clarice Lispector. Estão aqui reunidos porque, além do gênio, têm outra coisa em comum: escreveram cartas publicadas em livro ao longo dos últimos meses...
Puxe a cadeira, prezado leitor, para dois dedos de prosa. Olhe quem está na roda: Drummond, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Chico Buarque, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, João Cabral e Clarice Lispector. Estão aqui reunidos porque, além do gênio, têm outra coisa em comum: escreveram cartas publicadas em livro ao longo dos últimos meses...
| Clarice Lispector, Mário de Andrade, Drummond, Fernando Sabino, Guimarães Rosa e Vinícius de Moraes |
O que surpreende, de saída, é o volume de cartas: encheram dez livros (dos quais quatro não comento, por estarem fora do meu foco literário, mas deixo o registro, caso você seja aficionado do gênero: os de Tarsila do Amaral, Alceu Amoroso Lima, Nise da Silveira e o da correspondência de Machado de Assis e Joaquim Nabuco, cujo valor é mais documental, por tratarem extensivamente da fundação da Academia Brasileira de Letras). Dez livros não é pouca coisa. Principalmente quando se leva em conta que o brasileiro nunca cultivou muito essa tradição. Somos preguiçosos, uns macunaímas sem caráter a adiar o e-mail ao amigo que mora no estrangeiro. Bem, se serve de consolo, escritores não são diferentes. "Brasileiro é gente muito veada para escrever", observou Manuel Bandeira a Vinicius, reclamando de amigos que o deixavam sem resposta.
Se toda a regra tem exceção, esta tem nome e sobrenome: Mário de Andrade. Poeta, pesquisador, folclorista, funcionário público, ele achava tempo para escrever a velhos amigos e jovens admiradores. "Sofro de gigantismo epistolar", constatava, sem nenhum exagero. Como diz Silviano Santiago na apresentação da correspondência com Drummond: "Mário é um doador. Comunica-se com o interlocutor pelo desperdício do que lhe sobra".
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Mário logo diagnosticou a enfermidade em Drummond e partiu para a cura atacando seu maior ídolo, Anatole France. "O mal que esse homem fez a você foi torná-lo cheio de literatices, cheio de inteligentices, abstrações em letra de fôrma, sabedoria de papel." O problema, claro, não era Anatole, mas o próprio Drummond. "[Anatole] representou sua época. Não é um passadista, mas se você tiver as idéias dele, será um horroroso, ridículo passadista." E, depois da dura, o conselho amigo: "Você faça um esforcinho para abrasileirar-se. Depois se acostuma, não repara mais nisso e é brasileiro sem querer".
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O problema da influência é assunto recorrente entre literatos. Numa carta a Sabino, outro jovem promissor, o professor Mário volta ao tema, desestimulando-o a escrever como Machado de Assis: "Você se esculhamba, se perde". O ideal seria achar um estilo correspondente. "Machado de Assis não deve ser para você um companheiro de vida, mas apenas um tesouro onde você vai roubar. Roube dele tudo quanto possa ser útil a você, jogando o resto fora. Mas sempre não se esquecendo que você pode roubar errado."
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Clarice Lispector, na mesma época, enfrentava o mesmo fantasma. Tinha acabado de publicar "Perto do Coração Selvagem", uma revelação, tendo sido elogiada até pelo avesso, acusada de emular ninguém menos que James Joyce e Virginia Woolf, autores que ela ainda não lera, como escreveu a uma irmã. De qualquer maneira, a contrapartida do sucesso precoce é a obrigação de corresponder a uma expectativa gerada. Isso incomoda. Com aquela sua ambigüidade sutilmente reveladora, Clarice se abriu com Lúcio Cardoso: "Antes de começar a escrever eu tinha a impressão de que ia lhe contar [...] como eu tenho medo de ser uma 'escritora' bem instalada, como eu tenho medo de usar minhas próprias palavras, de me explorar". Ia contar, não. Contou. E o fez "num impulso de sinceridade e confissão".
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Mário de Andrade assinaria embaixo. "Você, por favor, nunca venha me argumentado com as palavras 'espontaneidade' e 'sinceridade'", respondeu certa vez a Sabino. "Tenho verdadeiro horror delas. É a vaidade e também a desonestidade do artista que as inventou. É a eterna e repulsiva confusão entre o artista e a obra-de-arte que lhes dá uma aparência de falsa legitimidade."
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Poliglota, por força da carreira diplomática, Guimarães Rosa acompanhava de perto as traduções de seus livros. Contou com bons tradutores, mas nem sempre deu sorte. A tradução para o inglês, por exemplo, mereceu reparos, confidenciados ao tradutor alemão à guisa de orientação sobre o que não fazer. "Tudo virou água rala, mingau", afirma sobre uma passagem. "Não viram que o livro é tanto um romance quanto um poema grande, também." De um modo geral, no entanto, não se incomodava que os tradutores mudassem o original, desde que deixassem intactas a música e a poesia. Ao contrário, estimulava-os a cortar o que, em outra língua, seria "inútil excrescência". Em italiano e alemão, seus livros seriam mais "fáceis", até melhores em alguns pontos, como reconhece o autor, que aproveitaria um ou outro comentário para alterar edições posteriores em português.
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Às vezes, as idéias ficam no meio do caminho. No início dos anos 70, Vinicius de Moraes escreveu ao Chiquérrimo (como ele chamava Chico Buarque) e propôs uma "aparafusada geral" na letra de "Valsinha", aquela que começa: "Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar...". Na realidade, queria mais que aparafusar. Queria mudar uns versos. Um deles ("e não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar") ficaria assim: "E não falou mal da poesia como mania sua de falar". Chico ficou "meio embananado" com a carta do parceiro (Vinicius fez a música). Enrolou, cheio de dedos, mas não cedeu: "Prefiro que o nosso personagem maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia". Também não aceitou o "vestido de dourado" do Poetinha: "Eu gosto de cantar vestidodecotado". Mais diplomaticamente, Chico considerou: "Estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata". E a música ficou como a conhecemos.
Bem, caro leitor, fico por aqui. Mas não quero me despedir sem indicar um livro de Guimarães. Embora não seja um livro de cartas, voltei a ele depois de ler a correspondência com o tradutor italiano. Trata-se de "Cara-de-Bronze", que faz parte do "Corpo de Baile". Faço, a seguir, um resumo do resumo que Guimarães fez ao tradutor: "O 'Cara-de-Bronze' era do Maranhão. Mocinho, fugira de lá, pensando que tivesse matado o pai. Veio, fixou-se na ambição e no trabalho, ficou fazendeiro, poderoso, rico. Triste, fechado, exilado, imobilizado pela paralisia (que é a exteriorização de uma como que 'paralisia da alma'), parece misterioso, e é; porém, seu coração, na última velhice, estalava. Então, sem se explicar, examinou seus vaqueiros para ver qual teria a mais viva e 'apreensora' sensibilidade para captar a poesia das paisagens e dos lugares. E mandou-o à sua terra, para, depois, poder ouvir, dele, todas as belezas e poesias de lá".
Não é um convite à leitura? Em "Cara-de-Bronze", "o que há, nos ditos dos vaqueiros, são tentativas de definição de poesia", diz Guimarães. O que há é até mais que isso. Abra o livro ao acaso e tropeçará com a própria poesia. Como esta fala rústica do homem do sertão: "A saudade é o braço-e-mão do coração, e que, certas horas, quer segurar demais em alguma pessoa ou coisa". Ave, palavra! Agora sim, despeço-me. Receba, leitor, meu melhor abraço. E escreva.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Só pra descontrair.... Poema "A galinha cor de rosa", de Duda Machado
A galinha cor-de-rosa
Era uma galinha cor-de-rosa,
Metida a chique, toda orgulhosa,
Que detestava pisar no chão
Cheio de lama do galinheiro.
Ficava no alto do poleiro
E quando saía do lugar,
Batia as asas para voar.
Mas seus pés acabavam na lama.
Aí armava o maior chilique,
Cacarejava, bicava o galo,
E depois, com ar de rainha,
Lavava os pés numa pocinha.
DUDA MACHADO
Do livro:
Histórias com poesia, alguns bichos e Cia. Duda Machado, Editora 34:2003
Carlos Eduardo Lima Machado, Duda Machado, nasceu em Salvador, BA em 1944. poeta professor de literatura e tradutor. Tem diversos livros infantis entre outros publicados.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
O que restou de mim...
Há tempos que não escrevo. Mas justifico-me: minhas paixonites recentes (como Mário de Andrade e Chico Buarque) andam consumindo meu precioso tempo.
Ademais, para compartilhar algo realmente bom com vocês, é preciso tempo; tempo e idéias frescas, e disposição e entrega...
Nesse meio tempo, algumas vozes vêm em meu auxílio. E aposto que irão amar...
Senhoras e senhores, com vocês, Adélia Prado e Florbela Espanca!!! E bon appeti!
Com licença poética
"Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree,já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou". A. Prado
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
F. Espanca
Ademais, para compartilhar algo realmente bom com vocês, é preciso tempo; tempo e idéias frescas, e disposição e entrega...
Nesse meio tempo, algumas vozes vêm em meu auxílio. E aposto que irão amar...
Senhoras e senhores, com vocês, Adélia Prado e Florbela Espanca!!! E bon appeti!
Com licença poética
"Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree,já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou". A. Prado
SER POETA
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
F. Espanca
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